A história de um dos meus “fracassos” na prática clínica

Em meu primeiro ano como psicólogo clínico, encontrei uma paciente que se queixava de ansiedade e insegurança em sua profissão e em seu relacionamento afetivo.

foi uma paciente que conseguia dizer não aos filhos (parte da queixa original) e dar limites ao trabalho, apenas para perceber o retorno constante dos pensamentos e sentimentos de autodepreciação, bem como uma constante sensação de fracasso pessoal.

Foram necessários muitos anos para que eu percebesse o quanto uma formulação de caso clínico não se resume a fazer uma análise funcional dos repertórios descritos na queixa ou a identificar quais técnicas psicoterápicas são descritas na literatura para o tipo de queixa apresentada. A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) me levou a entender que uma boa formulação de caso clínico precisa da compreensão do paciente a partir de seis dimensões psicológicas distintas: afeto, cognição, atenção, self, motivação e comportamento. Em cada uma dessas dimensões, eu entendi que é necessário a identificação dos principais processos de inflexibilidade psicológica que podem levar a paciente a lidar com sua própria subjetividade, relacionamentos interpessoais e outros desafios cotidianos afastando-se de uma vida significativa.

 Em especial, no começo de minha carreira, eu não tinha um modelo clínico que me permitisse ver que a queixa da paciente (i.e., “preciso aumentar minha autoestima”) já era parte do problema clínico. Enquanto clínico, eu a ajudei a aumentar a luta contra os sentimentos de baixa autoestima, ao invés de proporcionar condições para que ela aprendesse um novo jeito de se relacionar com sua própria subjetividade. Hoje eu consigo ver com clareza o quanto a paciente não precisava de um terapeuta que a ajudasse em sua luta por controle subjetivo, mas que a ajudasse a “sair da sua mente para entrar em sua vida”.  

Minha clareza atual não é um produto apenas de autorreflexões. Ela ocorre porque a ACT possui um modelo de formulação de caso que é fundamentado em mais de quarenta anos de pesquisas diretamente aplicadas ao setting clínico. Não se trata apenas da minha experiência, mas da experiência acumulada de décadas de investigação sistemática e corajosa de diversos psicoterapeutas.

É importante dizer que uma formulação de caso clínico ACT não apenas me ajudou a ver o fenômeno clínico com mais clareza. Muito além disso, me ajudou a organizar o que seriam objetivos terapêuticos e quais os processos psicológicos que precisariam ser mobilizados para alcançá-los. Eu preciso assumir que meu raciocínio àquela época era: “se eu fiz uma boa análise funcional e entendi porque a paciente possui baixa autoestima, eu sei quais intervenções devo fazer para ajudá-la a desenvolver mais autoestima”. 

Este modo de pensar foi uma falha tanto em utilizar a análise funcional para identificar os processos de flexibilidade psicológica relevantes como em estabelecer o que realmente seriam objetivos terapêuticos para aquele caso específico. Para isso, não adiantava saber fazer análise funcional ou estudar arduamente os manuais de clínica (acredite, eu fiz isso!). Eu precisava ter competência para utilizar uma formulação de caso clínica teoricamente embasada e pragmaticamente útil para me instrumentalizar na condução do caso clínico. Isto eu consegui com o modelo de flexibilidade psicológica da ACT. 

Já se passaram mais de vinte anos do meu primeiro contato com aquela paciente. Hoje eu valorizo, mais do que em qualquer época, a clareza e a segurança que decorrem de uma boa formulação de caso clínico. Em especial, ter abertura para estar com os nossos sentimentos e pensamentos de baixa autoestima é essencial para que não sejamos escravos destes sentimentos e pensamentos. Conhecer a história dessa subjetividade e como ela possui uma função em minha história deve me ajudar a ter auto gentileza e abertura para caminhar em direções que são valorosas, mesmo na presença da dor. 

A ACT é um modelo de maturidade para a prática clínica. Ela denuncia que um sujeito que não consegue lidar com sua própria subjetividade pouco consegue vivenciar uma vida significativa. Isto é verdade para os pacientes e para nós.

Vamos seguindo juntos,

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