A ciência não é o bastante para guiar a escolha

Estive pensando bastante sobre a relação entre técnica psicoterápica e deliberação. Não é incomum que nós, psicoterapeutas, sejamos procurados por pessoas que procuram por respostas. E não quaisquer respostas, mas por aquelas que aliviariam a sua própria dor de não saber como agir. 

Neste sentido, a clínica não apenas é permeada por temas como “Transtorno de Pânico” ou “Depressão”, mas por questões como: “será que devo permanecer nesse relacionamento?”, “eu devo continuar utilizando medicação psiquiátrica ou devo suspender?”, ou “o meu sentimento de desânimo em meu trabalho é um sinal de que devo procurar uma outra carreira?”. 

Embora sejam perguntas bastante diferentes, elas deveriam gerar uma atitude de humildade por parte dos terapeutas para a admissão de apenas um tipo de resposta sincera: “eu não sei!”. Mas, para que possamos entender qual o nosso papel nestes contextos, primeiro é importante refletir que nós também fazemos parte das práticas culturais que originaram estas perguntas por parte dos pacientes. Neste sentido, nós também nos sentimos inclinados a tentar encontrar a resposta certa para tais perguntas. Nós tendemos a estar em fusão cognitiva com o conteúdo literal dessas perguntas e isso gera ansiedade e insegurança frequentes.

 Para escapar a esta insegurança, alguns terapeutas buscam nos modelos clínicos ou supervisores formas de resolver estas questões (i.e., a esquiva experiencial dos terapeutas frequentemente é estudar mais ou procurar uma supervisão para que a resposta lhe seja ofertada). Mas há uma outra via para lidar com estas questões no cenário clínico, que diz respeito à mobilização de flexibilidade psicológica para o terapeuta: “Como eu me sinto e quais pensamentos me vem a mente quando o paciente faz estas perguntas?”, “como eu reajo a estes pensamentos e sentimentos na sessão terapêutica?”, “a forma como eu reajo me afasta ou aproxima do terapeuta que desejo ser?”. Cada uma dessas perguntas visa mobilizar processos de mudança clínica de Aceitação, Desfusão, Contato com o Momento Presente, Valores, etc. 

Decisões e Escolhas

Para facilitar este processo de flexibilidade eu gostaria de retomar a diferenciação que o Steven Hayes faz entre decisões e escolhas. Decisões são a escolha lógica entre dois caminhos alternativos. Apresentamos as razões, percebemos qual a razão mais forte e decidimos. Mas a maior parte das situações que encontramos no consultório não se refere a decisões, mas a escolhas. Estas são beneficiadas pelas razões, mas são feitas por nossa subjetividade integral: razões, sentimentos, valores, intuição, etc. Em uma palavra, escolhas exigem deliberação.

Até onde sabemos, os humanos são os únicos capazes de deliberar: ou seja, tomar um curso de ação baseado em reflexão e na responsabilidade pessoal e social. Deliberar é próprio do que nos torna humanos, mas envolve as dores de assumir um caminho na presença de sentimentos de incerteza, insegurança, medo, ansiedade, culpa, dentre tantos outros. Pensando dessa forma, quando o terapeuta se depara com o pedido do paciente por uma “resposta certa” para seus dilemas, precisamos ver a fuga da deliberação ocorrendo e, com a gentileza de quem está “no mesmo barco”, ajudá-lo a ter abertura (i.e., aceitação e desfusão cognitiva) para assumir um curso de ação.

Este não é um trabalho fácil, até mesmo porque dói no terapeuta perceber o sofrimento presente em algumas escolhas do paciente. Mas é apenas na dor da escolha que podemos encontrar significado em nossas trajetórias. A terapia não é confortável (para o paciente ou para o terapeuta), mas é o espaço de retomada do que é propriamente humano e que se tornou velado pelas promessas de felicidade perene. Em tempos de busca por evidências científicas na prática clínica, temos que nos lembrar que a ciência é essencial, mas não suficiente. A ciência pode nos mostrar “como” fazer algumas coisas, mas nunca “porque” devemos fazer tais coisas. A ciência nos mostra benefícios do agir baseado em valores, mas não nos isenta da deliberação acerca de quais valores devemos defender. 

Psicoterapia é prática científica, mas não só. Modelos psicoterapêuticos são fantásticos, mas não evitam a deliberação. Terapeutas possuem técnicas, mas não prometem que tais técnicas evitarão o papel do sujeito em, possuindo abertura para sua própria subjetividade, escolher o caminho que lhe apraz. Sejamos terapeutas. Sejamos humanos.  

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