Como intervir utilizando a Terapia de Aceitação e Compromisso?

Procedimentos, no contexto clínico, são as estratégias utilizadas para mobilizar os processos clínicos. 

Por exemplo, nomear os sentimentos e observá-los em uma prática de meditação é um procedimento frequentemente utilizado para mobilizar Aceitação e reduzir Evitação Experiencial. Embora os manuais ACT estejam repletos de estratégias adaptadas para as seis dimensões psicológicas, elas envolvem um tipo de relação terapêutica e de procedimentos que, por vezes, não fazem tanto sentido em nossas práticas culturais.

O meu maior desafio tem sido construir procedimentos de intervenção ACT, sensíveis à cultura brasileira, unindo o rigor científico com a sensibilidade cultural necessária para uma clínica psicoterápica significativa e eticamente engajada. Ao longo dos anos, percebi que a forma mais efetiva e significativa para mobilização de Flexibilidade Psicológica em meus pacientes envolvia utilizar a história de vida dos pacientes funcionalmente, integrando as seis dimensões psicológicas. Me acostumei a chamar esta estratégia de Narrativa Funcional.

Deixe-me dar um exemplo. Quando um jovem, em torno dos seus 30 anos, me procurou porque tinha uma raiva incontida de seus pais que o levava a afastar-se deles e culpar-se todos os dias por ser um péssimo filho, nós passamos algumas sessões narrando a história dos seus eventos subjetivos: sentimentos de raiva, pensamentos auto avaliadores, também narramos a história da sua capacidade de antecipar um futuro catastrófico, e da sua concepção de si mesmo como uma pessoa ruim “em pele de cordeiro”.

 Foram sessões intensas que o fizeram entender a função de cada um desses elementos subjetivos: sua raiva e agressividade o protegeram de um pai agressivo física e psicologicamente, bem como de uma mãe que demandava que o filho a protegesse. Os pensamentos auto avaliadores sobre si mesmo foram necessários para que ganhasse o afeto de uma mãe que se conectava vitimizando-se frente a vida. Desnecessário dizer o quanto este jovem precisou aprender a antecipar toda a catástrofe que frequentemente irrompia com um pai que isolava a família do resto do mundo. 

Depois de sessões intensas (porque narrar funcionalmente o nascimento da própria subjetividade a partir de um sistema matricial é seguramente intenso!) este jovem já conseguia ver a sua própria subjetividade e não necessariamente ver o mundo através dessa subjetividade. As narrativas o ajudaram a acolher seus sentimentos e pensamentos difíceis, a notar quando se afastava do contato com o momento presente e a pensar, em uma relação de oposição ao que viveu em casa, qual a vida que ele desejava viver. 

Quem sabe um dia poderei narrar este caso com mais detalhes para você? Por agora, eu quero apenas te convidar para, junto comigo, mergulhar no mundo da ACT sem perder o fôlego que te leva a pensar sobre a sua própria prática clínica. Um modelo clínico não se resume a um conjunto de procedimentos, mas te ajuda a formular um caso com clareza e segurança, criando um contexto para que os procedimentos sejam adaptativamente sensíveis à sua prática individual. Eu te agradeço por confiar em nosso trabalho (da minha equipe e meu) para te guiar na compreensão da ACT de uma maneira clara, simples, direta, mas significativa para sua prática clínica cotidiana. As narrativas funcionais também vão nos ajudar nisso.

Vamos seguindo juntos,

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