Eu me lembro quando comecei a ter mais curiosidade sobre os sentimentos difíceis que me assolavam. Em um início de carreira promissor, mas repleto de ansiedade, era muito estranho perceber que eu tinha ataques de pânico indo para o consultório e um nível alto de ansiedade antes de entrar em sala de aula. Eu tinha um carinho especial pelos pacientes e amava a sala de aula. Afinal, o que estava acontecendo?
Em geral, eu não levava esta pergunta tão a sério. Pelo contrário, eu tolerava os ataques de pânico, tolerava o sentimento de “perda de chão” na universidade, mas não os aceitava. Tolerância envolve tentar agir a despeito dos sentimentos, a despeito dos pensamentos, a despeito das sensações do corpo. E não funciona!
Steven Hayes utilizou uma metáfora interessante para representar esta lógica:
“Imagine que você está sentado em um carro e dirigindo por uma estrada deserta. De repente, no meio do nada, uma luz de aviso no painel anuncia: A pressão do óleo está muito baixa. Se você simplesmente ignorá-la e continuar a dirigir, corre o risco de causar sérios danos ao motor. Você sabe que pode ser rebocado, mas isso vai demorar um pouco.
Ao considerar sua próxima etapa, de repente você se lembra de um truque sobre como pode causar um curto-circuito na luz de advertência. Isso não mudaria nada no motor – ele ainda estaria sem óleo – mas o sinal de baixa pressão não estaria mais piscando no painel e você poderia ignorá-lo mais facilmente.
Aqui está a pergunta: você deve fazer isso?”
(Hayes, 2021, “The Shortest Ultimate Guide to Dealing With Emotions”)
Eu não estava tentando desligar a luz (i.e., a ansiedade) porque, afinal, eu estava estudando a ACT (eu compreendia equivocadamente a aceitação naquele período!). Mas estava tentando ignorar a luz de aviso e simplesmente continuava tentando viver a despeito de todos os afetos presentes. Ainda bem que o meu corpo falou mais alto do que a minha obstinação.
Isto perdurou até o momento em que comecei a ter mais curiosidade sobre a minha (difícil) subjetividade. Se ensinar e clinicar eram objetivos valorosos para mim, por que meu corpo estava mandando tantos sinais de aviso? Nesse momento, com uma abertura curiosa aos meus sentimentos eu pude perceber que eu não estava atento à minha ecologia de valores.
Tenho utilizado a expressão “ecologia de valores” para falar sobre o sistema de relações e tensões entre valores diferentes para um mesmo sujeito. Por exemplo, eu tenho um valor que envolve “compartilhar conhecimento relevante com pessoas”. Ao mesmo tempo, tenho um valor que é “ser um pai presente para os meus filhos” e, ao mesmo tempo, tenho um valor que é “desfrutar da solitude com livros e filmes”.
Quando a realidade bate a porta, me percebo trabalhando muito, sentindo culpa por não estar tão presente com meus filhos e desejando ficar sozinho para ler um livro que já está atrasado na estante. Percebeu o problema aqui? Todos temos diversos valores que interagem entre si de uma maneira não pacífica.
Por isso gosto da metáfora da “ecologia”. Um sistema ecológico é tudo, menos pacífico. Existem tensões constantes, hierarquias são quebradas em diversos momentos e prioridades mudam de acordo com os novos contextos (por exemplo, a mudança das estações). Assim é com os valores: um sistema de tensões que exige a nossa escolha diária sobre a melhor forma de agir.
Em meu início de carreira, inicialmente tentei ignorar (tolerar) a ansiedade. Depois, comecei a ouvi-la sinalizando que eu estava sendo tiranizado por um único valor em um único domínio do valor (a profissão). Depois, comecei a perceber que a minha vida precisava de integridade, e não de uma obstinação compartimentalizada. Bendita ansiedade!
Enquanto terapeutas, por vezes temos a seguinte ilusão: uma vez que identificarmos um conjunto de valores do paciente, ele saberá como agir. Esta é uma ilusão. Clareza sobre valores não isenta o paciente da dor da escolha. Não isenta o paciente da necessidade de deliberar e assumir as consequências da ação deliberada. Principalmente, não isenta o terapeuta de lidar com a espera e a incerteza em lidar com a integridade da vida humana em todas as suas dimensões psicológicas.
Que você, terapeuta, tenha abertura, presença e compromisso para viver uma clínica marcada pela flexibilidade psicológica.
Vamos seguindo juntos,