O perdão e a Terapia de Aceitação e Compromisso

“Eu preciso perdoar minha mãe para conseguir viver com a parte dela que está em mim.”

Já não me lembro mais a quantidade de vezes em que ouvi, no consultório, variações dessa mesma frase. Por vezes a mãe, outras vezes o pai, sempre o “si mesmo”. Uma paciente extremamente bem-sucedida profissionalmente, reconhecida como alguém racional e capaz, mas que irrompe em ódio contra si mesma quando se percebe irascível em relacionamentos íntimos. Ela se vê como a mãe que nunca conseguiu ser estável em relacionamentos, nem mesmo no relacionamento com a própria filha.

Um paciente alegre, comunicativo, praticamente um artista dos relacionamentos leves e divertidos, que odeia a autocomiseração que reconhece em seu pai e em si mesmo. Não procura mais o pai. Ele não suportaria. Mas na maioria das sessões clínicas volta a vociferar as mazelas imperdoáveis que o pai o fez sofrer. O pai sempre volta e ocupa o espaço da sessão.

O tema do perdão tem me retornado com muita frequência. Já ouvi perguntas sobre quais a razões para trabalhar este tema oriundo de práticas religiosas na clínica. Não seria este um tema moral/religioso que ofenderia a laicidade da psicoterapia científica? Por que razão a Terapia de Aceitação e Compromisso precisaria discutir sobre este incômodo tema? 

A primeira razão é muito simples: a clínica psicoterápica não pode se furtar a lidar com temas relacionais e subjetivos que são relevantes para os pacientes – não importando se tais temas são partilhados pela filosofia, religião ou tradição. Um dos meus heróis, o José Antônio Damásio Abib, certa vez escreveu:

“Imagine o leitor uma Psicologia que, do ponto de vista da análise experimental ou mesmo da interpretação, nada tenha a propor sobre o conhecimento da experiência subjetiva. Imagino que esta ciência, por mais rigorosa e sistemática, não deve despertar maior interesse, além talvez, de mera curiosidade técnica ou intelectual.”

Isto implica dizer que, em um primeiro momento, o perdão é um tema terapeuticamente relevante porque importa para a vida subjetiva e relacional dos nossos pacientes. Seria, então, um objeto de análise, mas não necessariamente um objetivo clínico. No entanto, há motivos para pensar que ele pode constituir um objetivo clínico legítimo. Veja o que Walser (2007) escreve sobre o tema:

“Não impomos o valor do perdão aos clientes. No entanto, caso o não-perdão apareça no decorrer da terapia como uma barreira para uma vida valorosa, ajudamos os clientes – especialmente os sobreviventes de trauma interpessoal – a distinguir entre o perdão e a admissão de que o que aconteceu com eles estava bem.” 

A ACT mobiliza flexibilidade psicológica para ajudar os pacientes a desfrutarem de uma vida significativa. O complexo fenômeno clínico que chamamos perdão frequentemente envolve altos níveis de flexibilidade psicológica e é condição sine qua non para que possamos nos mover em direções valorosas. Perdão é um tema essencial para a Terapia de Aceitação e Compromisso. Com relação a este tema, precisamos lidar com, ao menos, quatro subtemas importantes para a prática clínica.

  1. Entendendo o significado do perdão

Do ponto de vista da ACT, perdão é uma ação. Não se trata de esquecer o que aconteceu ou de livrar-se dos sentimentos difíceis que acompanham as memórias. As lutas para evitar memórias difíceis não favorecem o perdão, mas o impossibilitam. O perdão ocorre quando, com abertura para memórias e sentimentos difíceis, podemos viver dia a dia em direção a uma vida guiada por valores.

  1. A ênfase do perdão

A questão central para lidar com o perdão na clínica se dirige para identificar quais os valores presentes na relação do paciente com a pessoa a ser perdoada. Por exemplo, perdão pode significar “deixar o outro ir” ou “abrir mão de ser controlado pela expectativa de que o outro sofra punição ou reconheça o erro”. Considere que desejar a punição é diferente de ser controlado por este desejo. O desejo é legítimo, mas ser controlado por ele pode ser uma morte em vida. 

Outras vezes, o perdão pode envolver um retorno para a relação. Neste ponto, a ênfase precisa ser ainda maior nos valores, porque os sentimentos difíceis tendem a se fortalecer ainda mais. Talvez por isso Walser (2007) tenha insistido que 

“A maioria de nós já teve a experiência de perdoar alguém e, subsequentemente, sentir-se bem, apenas para perceber momentos ou horas depois que o sentimento passou e a raiva sobre o crime perdoado ressurgiu”

Não há “superação” das memórias, mas um novo contexto para ocorrência delas. Decidir retomar uma relação envolve ter abertura para ocorrência de sentimentos difíceis e permitir-se sentir a alegria dos novos encontros (Aceitação); Ver os pensamentos dolorosos, mas não apenas “através” deles (Desfusão Cognitiva); tecer gentis retornos para o momento atual da relação (Contato com o Momento Presente); não se perder de si mesmo enquanto retoma uma vida com o outro (Self Contextual); Retomar os porquês que fizeram o retorno à relação tornar-se importante (Valores); Assumir compromissos factíveis com o que é possível no momento (Compromisso com Valores). 

  1. Os efeitos do perdão

Me recordo quando uma paciente retomou o contato com a mãe em um compromisso de perdoá-la. Por vezes, houve o efeito emocional do alívio. Outras vezes, a raiva voltou a ocorrer. Mas o principal efeito ocorreu na relação da paciente com suas próprias características semelhantes às de sua mãe. Tratava-se de uma paciente que não conseguia exprimir seus desejos para o cônjuge ou mesmo de defender sua posição no trabalho porque sempre se sentia “inadequada como minha mãe”.

Perdoar a mãe, para esta paciente, envolveu mudar a relação que desenvolveu com seus pensamentos e sentimentos acerca de si mesma. A relação com a mãe não se tornou diária ou super-intensa, mas tornou-se mais leve. O perdão frequentemente liberta aquele que perdoa. 

  1. O perdão como processo

Como todo novo repertório comportamental, aprender a perdoar é um processo que pode levar dias, meses ou anos. Preparar o paciente para os altos e baixos da aquisição de flexibilidade psicológica é um procedimento standard da ACT. Não é diferente com o perdão. Em outras palavras, assim como ninguém adquire plenamente flexibilidade psicológica, ninguém possui o repertório “total” de perdão. 

A natureza processual do perdão conduz a uma outra qualidade interessante: não é possível perdoar alguém sem autocompaixão. Sem gentileza para com as idas e vindas da experiência subjetiva, sem perceber-se como partícipe de uma humanidade compartilhada, o processo de perdão dificilmente será levado a bom termo. 

Para finalizar, penso que o perdão pode ser um objetivo clínico. Desde que esteja a serviço dos valores do paciente. E quanto ao perdão de si mesmo? Bom, aí já precisaríamos de uma outra conversa.   

Textos citados:

Abib, J. A. D. (1982). Skinner, materialista metafísico? “never mind, no matter”. Em B. Prado Júnior (Org.). Filosofia e comportamento (pp. 92-109). São Paulo: Brasiliense.

Walser, Robyn D. (2007). Acceptance and commitment therapy for the treatment of post-traumatic stress disorder and trauma-related problems: a practitioner’s guide to using mindfulness and acceptance strategies. Oakland, CA: New Harbinger Publications. 

Veja também

A ciência não é o bastante para guiar a escolha

Estive pensando bastante sobre a relação entre técnica psicoterápica e deliberação. Não é incomum que nós, psicoterapeutas, sejamos procurados por pessoas que procuram por respostas. E não quaisquer respostas, mas por aquelas que aliviariam a sua própria dor de não saber como agir. Neste sentido, a clínica não apenas é permeada por temas como “Transtorno […]

“Eu sou uma farsa!”: o elefante branco no consultório do psicólogo

Há um elefante branco no consultório da maioria dos psicólogos clínicos. Ele sempre está lá, mas nos recusamos a falar sobre ele ou mesmo admitir que ele está ocupando quase todo o espaço da sala. Esse elefante branco as vezes se mostra com o seguinte conceito sobre o próprio self do terapeuta: “eu sou uma […]

A história de um dos meus “fracassos” na prática clínica

Em meu primeiro ano como psicólogo clínico, encontrei uma paciente que se queixava de ansiedade e insegurança em sua profissão e em seu relacionamento afetivo. foi uma paciente que conseguia dizer não aos filhos (parte da queixa original) e dar limites ao trabalho, apenas para perceber o retorno constante dos pensamentos e sentimentos de autodepreciação, […]