“Eu sou uma farsa!”: o elefante branco no consultório do psicólogo

Há um elefante branco no consultório da maioria dos psicólogos clínicos.

Ele sempre está lá, mas nos recusamos a falar sobre ele ou mesmo admitir que ele está ocupando quase todo o espaço da sala. Esse elefante branco as vezes se mostra com o seguinte conceito sobre o próprio self do terapeuta: “eu sou uma farsa!”, acompanhado por sentimentos de culpa, insegurança, ansiedade e de pensamentos sobre o fracasso na prática clínica. 

            As diversas variações dessa experiência subjetiva são difíceis (um behaviorista diria que são aversivas). Por conta disso, diferentes terapeutas aprenderam formas diferentes de lutar contra ela: alguns de nós se recusam a cobrar um preço digno pelo seu trabalho, porque os sentimentos de culpa e autocobrança ficariam ainda mais fortes se o fizessem; outros fazem dezenas de cursos diferentes (e por vezes isso não é uma hipérbole), se convencendo de que quando conhecerem mais técnicas, não precisarão mais hospedar o elefante na sala; outros ainda decidem que a psicologia clínica não é para eles e procuram outra carreira, dentro ou fora da psicologia. 

            Eu vou te contar um segredo. Atente bem, porque ele pode salvar a sua vida e carreira.  Sabe aquele “super psicólogo” que apresentou o caso perfeito no congresso? O elefante provavelmente também está no consultório dele, mas não foi apresentado nos slides do congresso; sabe aquela palestrante superconfiante que fala sobre a certeza científica de que a técnica correta está disponível para cada caso clínico? De que há um “padrão ouro” para cada caso? Então… o elefante que está na sala dela as vezes derruba os certificados que ela ostenta na parede do consultório.  

            Todas as pessoas que se importam verdadeiramente com a dor do outro sofrem ao perceber a própria insuficiência para lidar com o sofrimento humano diariamente apresentado no consultório. Se existe essa dor é porque você se importa com pessoas e deseja fazer a diferença na vida delas. Neste caso, a sua dor aponta para os seus valores. Dito de outra forma, mostre-me um psicólogo clínico que não sofre tais experiências e eu te mostrarei alguém que não possui os valores que mais admiramos na prática clínica. 

Se o seu consultório tem o elefante branco, bem-vindo à nossa humanidade compartilhada entre terapeutas que sem importam com pessoas. Mas é claro que existem estratégias para lidarmos melhor com esta experiência de sofrimento sem negá-las. Flexibilidade Psicológica pode te ajudar a ter abertura, presença e compromisso na presença do sofrimento. Vamos continuar falando sobre isto. Por enquanto, curta o seu elefante branco, porque ele me diz muito sobre os seus valores como terapeuta. 

Vamos seguindo juntos,

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